Em finais do século XVII, a descoberta de jazidas no Brasil levou a uma corrida ao ouro que ajudaria a resolver o défice comercial de Portugal, mas agravando, a longo prazo, a pobreza relativa do reino. Numa torrente de barras e moedas, o ouro do Brasil chegava a Lisboa e permitia comprar roupas francesas, mobiliário faustoso do Oriente e sumptuosos fogos de artifício exibidos em festas mundanas, para além de financiar a construção de monumentos majestosos, como a famosa Ópera do Tejo, onde havia camarotes luxuosos e até uma porta para introduzir cavalos em palco, ou a sumptuosa Igreja Patriarcal, com a sua legião de músicos e cantores.
Lisboa impressionava estrangeiros e viajantes pela quantidade de ouro utilizada para decorar palácios, igrejas e até coches. Os carregamentos de ouro extraído no Brasil e transportado de barco para o porto de Lisboa eram vigiados de perto pelas tropas do rei — um aviso claro para quem quer que planeasse contrabandear o precioso metal.
Contudo, uma quantidade significativa de ouro era contrabandeada para fora do território e enviada para Inglaterra, o que provocou uma grande tensão diplomática entre os dois países. Contrabandistas como os famigerados Fernando Wingfield e Duarte Roberts estavam sempre a arranjar formas novas e criativas de transportar o ouro por mar. O seu modus operandi era tao descarado, que provocou um escândalo internacional. Foram presos, tiveram os seus bens apreendidos e enfrentaram uma sentença de morte. No entanto, ambos foram perdoados, autorizados a regressar, e os seus bens foram-lhes devolvidos.


O açúcar era na época outro produto bastante valioso. Os caixotes de açúcar armazenados na Casa da Alfândega eram tantos que tiveram de arranjar outro local para os guardar. Por fim, optaram pelas cavalariças de um dos maiores palácios de Lisboa à beira-rio, o Palácio Corte Real.
Este palácio, o Palácio Corte Real, foi um dos cerca de 50 palácios da cidade que acabaram destruídos pelo terramoto ou seriamente danificados pelo incêndio.
Apesar dos fidalgos portugueses não serem particularmente ricos, em comparação com a nobreza do norte da Europa, os palácios de Lisboa eram considerados magníficos, construídos em cantaria (espécie de mármore) e muito elogiados pelos viajantes. Estavam ricamente mobiliados, assistidos por numerosos criados (no caso dos palácios dos duques e marqueses passavam normalmente as 50 pessoas), muitas carruagens e ainda maior número de cavalos. Os mais ricos tinham espelhos ingleses decorados a prata, tapeçarias da Flandres, alcatifas da Pérsia e da China, mobília japonesa, potes chineses, louça indiana, cadeiras almofadadas a veludo, cortinados de damasco com bordados a ouro, oratórios e muita pintura italiana.
Os jardins, sobretudo nos palácios situados no limite da cidade, podiam ser impressionantes, autênticas cercas de conventos, com bosques, passeios lajeados, painéis de azulejos, varandas de mármore, jardins de vários tabuleiros, com colunatas de pedra e até lagos com peixes de várias espécies. Nestes jardins ocorriam as famosas festas, chegando a ser usadas mais de 8 000 luzes e muitos fogos-de-artifício.
Após o terremoto, muitos destes palácios soberbos não voltaram a ser reedificados, talvez a única ausência digna de registo que os viajantes encontrariam na nova cidade reconstruída. Entre os palácios mais lamentados contam-se os dos Condes da Ericeira, dotado de uma vasta biblioteca. Dos cerca de 80 palácios de nobres e titulados de Lisboa, quase dois terços desapareceram para sempre.