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Carvalho e Melo e o Duque de Lafões pediram a Manuel da Maia, engenheiro-mor do reino, que reunisse uma equipa de engenheiros, com o intuito de apresentar propostas para a reconstrução de Lisboa. No dia 4 de Dezembro de 1755, pouco mais de um mês após o terramoto, Manuel da Maia entregou a primeira de 4 dissertações, onde explicava as possibilidades de reconstrução. Embora apresentasse cinco propostas, a lógica da reconstrução assentava sobre três ideias distintas:
1 - Reconstruir Lisboa tal como existia antes da catástrofe, introduzindo apenas pequenas melhorias, como a diminuição da altura dos edifícios. Esta solução era a mais barata e a mais simples, garantindo aos proprietários os direitos de propriedade, exatamente do mesmo modo, tal como existiam antes do terramoto.
2 - Nivelar toda a zona baixa da cidade e usar os escombros para a aplanar, elevando os edifícios, embora com restrições de altura. Esta solução permitiria criar um sistema de esgotos e assegurar, com facilidade, o fluxo da água das marés, de volta para o rio, através da criação de uma ligeira inclinação, desde o Rossio até à Praça do Comércio. Também incluía o desenho de ruas mais largas e a reconfiguração das praças. Mas esta solução punha alguns problemas: redesenhar os terrenos e habitações, negociando novos direitos de propriedade, o que implicava inevitáveis conflitos.
3 - Mudar a cidade para Belém, uma vez que a zona fora a menos atingida pelo terramoto. Belém proporcionaria um novo começo e espaço para crescer. Mas esta solução implicava lidar com proprietários que tinham de deixar para trás casas e terrenos na Baixa.
O rei escolheu a segunda proposta e imediatamente começaram os trabalhos de remoção de entulhos e nivelação das terras. Embora hoje seja difícil conceber esse cenário, a zona da baixa era bastante desnivelada, atravessada por cursos de água, dezenas de ruas e de travessas, becos, praças, inúmeras igrejas, num dédalo de estrutura medieval. Várias ruas ligavam o Terreiro do Paço ao Rossio, mas nenhuma tão larga, nem tão retilínea, como as existentes nos dias de hoje.
Apesar das condições precárias, o trabalho de reconstrução foi posto em marcha com assinalável diligência. Manuel da Maia, estratega do Plano de Lisboa, tinha perdido grande parte dos seus preciosos desenhos, instrumentos e livros no incêndio que se seguiu ao terramoto. Homem já idoso, sobretudo para a época, perto de fazer oitenta anos, no dia 1 de Novembro de 1755, Manuel da Maia deixou a casa em chamas e dirigiu-se para o castelo de São Jorge, acompanhado de alguns guardas. Juntos retiraram dos escombros uma grande quantidade de caixotes cheios de documentos. Conseguiu assim salvar o espólio imenso do arquivo do reino, guardado na Torre do Tombo, na altura a funcionar no castelo de S. Jorge. Manuel da Maia fizera um voto de castidade aos doze anos e morreu sem herdeiros, tendo dedicado toda a sua vida ao trabalho, servindo no total três monarcas portugueses. Como reconhecimento dos serviços prestados, recebeu a condecoração da Ordem de Cristo. No único retrato a óleo que lhe conhecemos, usa orgulhosamente essa cruz ao peito.
De notar que o projeto não foi encomendado a grandes arquitetos italianos ou outros estrangeiros de renome, como sucedera tantas vezes no passado, mas sim a uma equipa de engenheiros militares treinados no reino. Portugal tinha em 1755 uma vasta tradição de construção monumental - no reinado de D. João V fizeram-se grandes obras, como o Convento e o Palácio de Mafra e o Aqueduto das Águas Livres. Durante cerca de 80 anos de trabalho especializado, desenvolvera-se a tradição das Casas do Risco nos grandes estaleiros, locais onde os engenheiros militares recebiam a sua formação e planeavam ao pormenor a construção de edifícios.
Manuel da Maia convocou para a reconstrução uma equipa de engenheiros militares, dos quais se destacavam Eugénio dos Santos e Carlos Mardel. Manuel da Maia decidiu que deveriam ser eles a liderar a equipa, pois considerava-os «além de engenheiros de profissão, os primeiros arquitetos na arquitetura civil». Para lá da competência mecânica em engenharia, eram versados nos príncípios da arte urbana, uma disciplina complexa, de origens renascentistas, que nunca deixara de ser praticada por alguns dos ministros mais eruditos. Para gerir a conceção e a reconstrução de Lisboa, e tal como em todas as grandes obras do reino, foi criada uma Casa do Risco das Obras Públicas. De início, este gabinete, tal como outros tribunais e instituições da Corte, deverá ter funcionado em espaços improvisados. Quando os edifícios da ala oeste da Praça do Comércio ficaram prontos, a Casa do Risco teve as suas instalações definitivas.
Durante os anos seguintes, a elite de engenheiros militares, talvez reconhecida pela primeira vez na história da arquitetura em Portugal, prosseguiu o trabalho. Eugénio dos Santos, responsável pelo plano geral, implementou a arquitetura de série, marca da reforma pombalina, reconhecida hoje pela sua modernidade, mas na altura bastante criticada por ser monótona e repetitiva. Essa monotonia criou as condições para a produção em série, rápida, eficaz, e até à altura, desconhecida, pelo menos a esta escala, implementando a pré-fabricação como método construtivo. O outro grande arquiteto, cujo trabalho se entrecruza com o de Eugénio dos Santos, foi Carlos Mardel, homem de origem húngara, com um gosto mais palaciano, mais requintado, que teve uma intervenção determinante nas zonas de maior representatividade, nomeadamente na Praça do Comércio e no Rossio.
Este novo plano da Baixa Lisboeta foi assente em princípios claros e ordenadores. Muitas casas, pouco danificadas, e em condição de aproveitamento, foram demolidas para dar espaço à nova grelha. Embora as quantificações sejam difíceis, perante tantos edifícios demolidos, observadores comparavam o esforço de demolição a um segundo terramoto. Para além dos excruciantes trabalhos da remoção de entulhos e nivelamento, os ministros do rei tinham de supervisionar a reorganização das propriedades, expropriações e compensações, um verdadeiro quebra cabeças, amplamente documentado, dado o rigor aplicado ao processo.
A importância da hierarquia, o hábito do trabalho de equipa, e a disciplina inerente à profissão militar provaram-se essenciais no sucesso da reconstrução de Lisboa. Assim como a ideia de uma estratégia geral, por detrás de cada ação tomada - algo que hoje em dia seria considerado perfeitamente normal, foi na altura, recebido como novidade. Mobilidade, estandardização e eficiência foram conceitos chave do design final.
Através da pronta reconstrução, liderada pelos engenheiros militares, Carvalho e Melo tencionava enviar uma mensagem aos grupos que se opunham às suas ideias políticas. O governo do rei continuava a funcionar e a responder às necessidades do reino, convertendo o desastre numa reorganização das instituições e da Corte. Carvalho e Melo usou a reconstrução de Lisboa para mudar a paisagem urbana e reconfigurar os símbolos políticos. Um bom exemplo foi a mudança do velho conceito «Terreiro do Paço» para Praça do Comércio, dando ênfase à classe emergente de comerciantes e mercadores, ligados a Carvalho e Melo. A centralidade dos negócios correspondia a uma tendência já vincada nas grandes capitais europeias, onde as Bolsas de valores eram desde finais do século XVII o coração político-económico dos reinos e repúblicas. A fusão entre a magistratura e os grandes negociantes, daria origem a um governo menos marcado por critérios formais de justiça, um governo mais funcional e dependente da vontade política do secretário de Estado.
Muitos nobres recusaram-se a reconstruir em Lisboa por esta carecer agora da pompa e circunstância arquitetónica a que estavam habituados. A velha Lisboa, com o seu intricado esplendor, perdera-se para sempre. Quando o próprio rei decidiu não regressar ao Paço Real e doar a propriedade à cidade, os nobres ficaram numa posição muito mais fragilizada, na hora de protestar contra as mudanças. Na nova Lisboa, a presença visual do clero foi também diminuída, não sendo permitida a construção de igrejas que não seguissem os novos princípios arquitetónicos, nem a (re)construção de campanários. Tal mudou radicalmente o perfil da cidade. Até o Palácio da Inquisição, no Rossio, ainda que prontamente reconstruído, viu as suas imponentes caraterísticas distintivas diluídas no traçado do novo centro da cidade.

Planta topográfica da Cidade de Lisboa – a rosa o desenho das ruas da Lisboa antes do terramoto e a amarelo, o novo alinhamento urbano, com o novo traçado das ruas e os novos edifícios um plano ortogonal, com ruas largas e praças amplas. Esta gravura, de 1949, talvez a mais conhecida representação do plano de reconstrução de Lisboa, é uma cópia do original de 1758 e está no Museu da Cidade em Lisboa. Representa o plano escolhido de entre as várias propostas apresentadas pelas três equipas iniciais às quais Manuel da Maia, engenheiro-mor do reino, solicitou a criação de projetos de recuperação da cidade arruinada. Todos os projetos deveriam propor o melhoramento da cidade, tendo em conta segurança dos edifícios, a higiene das ruas e das habitações. Essas três equipas iniciais eram formadas por arquitetos/engenheiros militares, e chefiadas pelos capitães Elias Sebastião Poppe, Eugénio dos Santos e pelo ajudante Gualter da Fonseca. O plano escolhido foi o do capitão Eugénio dos Santos, datado de 12 de junho de 1758.

Manuel da Maia (c. 1677-1763) tinha a seu cargo a estratégia geral e a conceção do plano de reconstrução. Começou a trabalhar como assistente de Engenharia aos 18 anos de idade e, mais tarde, lecionou na Aula de Fortificações. Participou na construção de dois dos edifícios mais emblemáticos da altura: o Aqueduto das Águas Livres, um dos ícones de Lisboa, e o Palácio-Convento de Mafra. Dedicou a vida ao trabalho, serviu três monarcas e morreu sem deixar descendência.
Acerca da “Dissertação”, e da sua importância para a reconstrução de Lisboa, a introdução ao texto do Engenheiro Mor por Cristóvão Aires, em “Manuel da Maia e os engenheiros militares portugueses no terremoto de 1755” (Imp. Nacional - 1910) , que sugere a existência de plantas iniciais desenhadas pelo próprio Manuel da Maia, das quais hoje infelizmente não se sabe o paradeiro:
“Eis agora o trabalho apresentado por Manuel da Maia e que embora pouco nítido sob o ponto de vista literário, honra e justifica a alta reputação do engenheiro, pois representa todo um complexo plano de obras, de aterramento, de esgotos, de higiene, de alinhamento de ruas e travessas nas partes da cidade a reconstituir ou a construir de novo, de construção de edifícios públicos entre eles os Paços Reais, a Biblioteca e as Alfândegas e também particulares nas devidas condições de segurança contra tremores de terra e de isolamento do fogo; da forma dos prédios, sem passagens cobertas para evitar atentados noturnos; da salvaguarda dos terrenos destinados a servidões militares junto as fortificações da cidade, de tantos outros assuntos importantes que é curioso seguir entre o emaranhado da prosa do ilustre militar e que, como vimos já, lhe vem dar a primazia de muitas iniciativas que lhe não eram atribuídas. A parte 3a da Dissertação é muito interessante porque trata dos serviços de limpeza da cidade, esgotos, abastecimento de água, bocas de incêndio, reconstrução dos edifícios do Terreiro do Paço, largura e estrutura das ruas, à laia das de Inglaterra, com as respetivas plantas traçadas por Manuel da Maia, e que é pena que não se saiba onde param, para ver se foram realente seguidas, quando tais edifícios e ruas se fizeram.”

Carta que o Secretário de Estado Sebastião José de Carvalho e Melo escreve a Manuel da Maia, cinco dias após o terramoto, em resposta a outras duas que o Engenheiro Mor lhe tinha escrito, provavelmente informando o rei sobre o salvamento dos documentos dos arquivos reais da Torre do Tombo e pedindo apoio financeiro para o seu armazenamento. Carvalho e Melo assegura o Engenheiro Mor do apoio financeiro real e acrescenta uma nota de satisfação da parte do rei D. José com esta sua ação (heroica).

O Aqueduto das Águas Livres, obra monumental iniciada em 1732, marcou o reinado de D. João V. Viria aliviar os problemas de abastecimento de água à capital - uma questão desde sempre muito discutida na cidade, mas abordada pelo senado da Câmara com maior urgência a partir do início do seculo XVIII. À época descrita em França como “a mais magnifica e mais sumptuosa empresa (do) género”, é uma das mais notáveis obras de sempre da engenharia hidráulica, estendendo-se por cerca de 59 km, desde a nascente, a 2 km de Belas, até à Mãe d'Água das Amoreiras, incluindo os ramais. Manuel da Maia esteve ligado à sua construção, assim como Carlos Mardel. Merecem destaque: a Arcaria do Vale de Alcântara, com 35 arcos (21 plenos e 14 quebrados), o Arco das Amoreiras, em forma de arco triunfal e a Mãe d'Água das Amoreiras, reservatório de receção. A funcionar desde 1748, foi desativado no 3º quartel do séc. XX, tendo sido reaberto ao público em 1986. Pode ser visitado, fazendo parte do Museu da Água da EPAL, em Lisboa.

A monumentalidade da obra do Convento e Palácio de Mafra deu origem a um dos grandes estaleiros de construção do reinado joanino (1706-1750), uma verdadeira escola prática (“a escola das obras de Mafra”) por onde passaram muitos profissionais, como Manuel da Maia e Eugénio dos Santos. Quando o terramoto atingiu Lisboa, Portugal contava já cerca de 80 anos de forte tradição construtiva, com cerca de três gerações de engenheiros militares envolvidos nesse trabalho técnico e prático. Mas não foram apenas os engenheiros a sedimentar o seu estatuto profissional nesse período. Basta pensar nas centenas de pedreiros, canteiros, cabouqueiros, marceneiros e carpinteiros especializados, para não falar de pintores, serralheiros – muitas vezes profissões que passavam de pai para filho, passando também o conhecimento e aperfeiçoamento técnico. Apesar da escolarização informal, o trabalho da pedra tornou-se muito sofisticado, como ainda hoje se pode ver na profusão decorativa do convento: caneluras, acantos, festões, acrotérios, grinaldas. Os sonhos de grandiosidade do rei D. João V, pai de D. José, corresponderam a obras emblemáticas (Igreja da Patriarcal, Aqueduto das Águas Livres, Palácio de Mafra) mais tarde muito criticadas pelos economistas, mas também ajudaram a reconhecer e prestigiar a profissão de engenheiro militar. Quando o desastre atingiu Portugal, o reino estava preparado para a reconstrução, em termos práticos, teóricos e morais, o que explica em parte a celeridade e a ambição dos planos reconstrutivos.

Eugénio dos Santos (1711-1760) era filho e neto de pedreiros. Ainda estudante na Aula de Fortificações, trabalhou no Palácio-Convento de Mafra e, mais tarde, sob a alçada de Manuel da Maia, na construção do Hospital das Caldas da Rainha. Após o terramoto, tornou-se diretor da Casa do Risco das Obras Públicas. Pragmático e totalmente empenhado, é tido como o principal impulsionador por detrás do uso da arquitetura estandardizada das reformas pombalinas.

Os edifícios da Baixa foram construídos usando uma estrutura de madeira, resistente a sismos, a chamada “Gaiola Pombalina”. Para evitar a propagação de incêndios, foram também introduzidas paredes corta-fogo - neste desenho pode vê-las a sair diretamente do telhado, dividindo os edifícios. O custo da instalação de um sistema de esgotos em todas as casas revelou-se incomportável, mas as obras realizadas no saneamento da cidade melhoraram consideravelmente as condições na zona da Baixa. Antes do terramoto, Lisboa costumava ter a alcunha de Lisboa Fedorenta, devido à inundação constante dos pisos térreos e à falta de um sistema de esgotos funcional. Embora estes problemas fossem comuns a outras cidades europeias da época, o caso de Lisboa era mais complicado devido ao fluxo das marés, que regularmente inundavam a parte baixa da cidade.

Eugénio dos Santos também foi responsável pelo desenho do novo edifício do Senado da Câmara, construído no local da antiga Igreja Patriarcal, conhecido hoje como Praça do Município. A Praça do Município e a Praça do Comércio — nova designação do Terreiro do Paço — foram duas das mudanças mais simbólicas da nova Lisboa, e ambas da sua autoria.

“O Terreiro do Paço foi objeto dos cuidados de Manuel da Maia logo na primeira parte da sua “Dissertação”, ao prever as “boas entradas” que para a cidade renovada se poderiam fazer naquela praça;” (“A Reconstrução de Lisboa e a Arquitetura Pombalina”, José- Augusto França).
Nesta imagem podemos ver em primeiro plano a estátua equestre de D. José, inaugurada em 1775, por detrás, os alçados norte e nascente da praça, com a sua arcaria típica, remanescente da antiga “Galeria das Damas”. O arco de triunfo, a meio da face norte, e a estátua equestre ao centro, ambos originalmente projetados por Eugénio dos Santos em 1759, deram a esta praça a necessária dignidade e pompa, um pouco posta em causa com a partida do rei. Nesta praça seria edificada a bolsa, que anteriormente se reunia na Rua Nova dos Ferros, daí vindo certamente o novo topónimo do local: Praça do Comércio.

Carlos Mardel (c. 1695-1763) era de origem húngara e vivera na Áustria antes de vir para Lisboa. No Plano de Lisboa, foi responsável pelo desenho das zonas de maior referência, como o Rossio, explorando o aspeto monumental e simbólico da arquitetura. Foi também responsável pelo desenho de partes do Aqueduto das Águas Livres e de muitos outros ícones de Lisboa, como o Chafariz da Esperança, uma fonte pública. Após a morte de Eugénio dos Santos, em 1760, assumiu a liderança da Casa do Risco das Obras Públicas.

Dentro do projeto do Sistema das Águas Livres, nomeadamente na distribuição da água pela cidade, Carlos Mardel desenhou chafarizes emblemáticos da cidade de Lisboa, como o Chafariz do Rato (1753-1754) e o Chafariz da Esperança (1752-1763), do qual vemos aqui um desenho. Este chafariz, situado no Largo da Esperança, está classificado como Monumento Nacional, e obedece a um esquema vertical: num plano inferior tem um tanque largo, destinado a bebedouro dos animais, que recebe a água de carrancas de cantaria. Num plano superior, um balcão com um segundo tanque, onde a água cai de carrancas de bronze, destinado a pessoas. Sobe-se a esse balcão através de 2 lanços de escada laterais. O chafariz é encimado por um pequeno frontão curvo aberto, ostentando as armas reais – assinalando assim o patrocínio régio da sua construção. A rematar este volume surgem, ao meio e nos cantos, 3 pináculos em forma de vaso, com decorações folhosas, terminando em alcachofra.
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Carlos Mardel chegou a Portugal em 1733, onde foi sargento-mor de engenharia da Infantaria. De 1735 a 1745 ocupou uma posição de liderança no Sistema das Águas Livres, tendo trabalhado no Aqueduto das Águas Livres (1735-1744), e sido responsável pelo Arco Monumental das Amoreiras (1740-1744) – construído para celebrar a chegada das águas, o Arco do Carvalhão (1742-1745) e Mãe d'Água das Amoreiras (1745-1763), da qual vemos aqui um desenho a tinta da China e aguarela.

Conhecido pelo gosto requintado e pela excelência técnica, Carlos Mardel foi encarregado por Carvalho e Melo de conceber os planos do seu novo palácio. O Palácio do Marquês de Pombal, construído entre 1759 e 1763 em Oeiras, é conhecido como o trabalho mais notável e complexo de Mardel. Encontra-se aberto ao público e fica a uns meros vinte minutos de Lisboa.

A Planta Geral de Lisboa, executada em 1650, é a mais antiga planta hoje conhecida da cidade. Esta gravura é uma cópia efetuada em 1850 por ordem do general Eusébio Pinheiro Furtado, que a ofereceu à Câmara Municipal de Lisboa. O documento original perdeu-se no século XIX.

Junto da igreja de São Roque ficava a torre com o mesmo nome - também conhecida por Torre do Patriarca. Ficou muito danificada pelo Terramoto de 1755 e foi demolida em 1837.

Pintura com uma temática rara na pintura portuguesa do séc. XVII: as vistas urbanas sem cariz religioso. Provavelmente influenciado pelo trabalho de Dirk Stoop, pintor holandês que esteve em Portugal na década de 1650, Filipe Lobo era bastante jovem quando pintou este quadro. Vemos uma perspectiva elevada do Mosteiro dos Jerónimos, com o pintor colocado virtualmente a oeste, junto à praia, com a grande estrutura monástica retratada como pano de fundo. O famoso Chafariz da Bola - uma fonte pública que foi removida em meados do século XIX - é retratado a meio. Podemos também ver a estrada pública que corria paralelamente ao mosteiro, com a Torre de Belém também visível ao fundo, juntamente com o palácio da Quinta da Praia (que pertenceu ao Marquês de Marialva) e o convento do Bom Sucesso. Para além da qualidade cénica do local, o pintor capturou também, nesta zona suburbana da cidade, cenas de convívio urbano - pessoas envolvidas em conversas românticas, crianças, mulheres a buscar água, homens a cavalo - bem como cenas mais rústicas com animais errantes de carga e personagens populares, numa alusão contrastante às suas árduas tarefas diárias. Belém estava na altura do terramoto provavelmente um pouco mais povoada do que quando esta pintura foi feita, mas não muito, pois ainda era referida como um lugar tranquilo com ar fresco, em Lisboa, a zona preferida da rainha Mariana e das suas filhas.
Três ideias fundamentais regiam as várias propostas de reconstrução: 1) reconstruir Lisboa tal como era antes, introduzindo apenas pequenas melhorias; 2) nivelar toda a zona baixa da cidade e usar os escombros para a aplanar; 3) mudar a cidade para Belém. O rei optou por reconstruir Lisboa no mesmo local, usando os escombros para nivelar o solo e aplicando técnicas inovadoras de desenho e construção, para responder às exigências de uma capital moderna. Se apenas fossem introduzidas pequenas melhorias, os edifícios permaneceriam igualmente vulneráveis a danos causados por tsunamis ou sismos. Mudar Lisboa para Belém implicaria abandonar a memoria da cidade, onde a corte vivera durante vários seculos, e obrigar centenas de proprietários a reconstruirem as suas casas noutro local. É possível que a primeira sugestão, reconstruir Lisboa tal como era antes, repetindo os mesmos problemas estruturais, pretendesse apenas dirigir a atenção do rei para as duas soluções que realmente interessavam a Manuel da Maia, em termos de desafio urbanístico: reconstruir radicalmente a geografia da cidade, proposta hercúlea nos esforços de nivelamento e remoção de entulho, mas aliciante nas possibilidades de transformação da cidade velha; ou recriar totalmente a cidade, talvez a proposta mais atraente para o urbanista que sonha, a hipótese de Belém, a tabula rasa, o desenho livre sobre o papel branco.
![Planta [6] Plano para a cidade de Lisboa baixa, 1755, desenho por Eugénio dos Santos e Carvalho (1711-1760) - MC.DES.0979 © Colecção do Museu de Lisboa / Câmara Municipal de Lisboa – EGEAC](https://images.prismic.io/quake/acQfD5GXnQHGY91K_ManueldaMaia16.png?auto=format,compress)
Planta para a cidade de Lisboa baixa destruída, em que vão (as)sinaladas com pontuação preta todas as ruas, traveças e becos antigos e as ruas escolhidas de novo com toda a liberdade se mostrao em branco e os sítios dos edifícios novos de amarelo, e as Igrejas conservadas em suas situações de carmesin e Terreiro do Paço elevado a huma avultada grandeza e hum novo molhe dentro da Alfandega com melhor uso do que a poente
![Planta [5] para a renovação da cidade de Lisboa após o Terramoto de 1755, desenho por Elias Sebastião Poppe e Eugénio dos Santos e Cravalho (1711-1760) - MC.DES.0980 © Colecção do Museu de Lisboa /Câmara Municipal de Lisboa – EGEAC](https://images.prismic.io/quake/acUMzZGXnQHGY_Fp_ManueldaMaia17.png?auto=format,compress)
"Planta para a renovação da cidade de Lisboa baixa destruida idealizada com toda a liberdade, assim dentro da povoação como na marinha, sem atender à conservação de cousa alguma antiga, assim sagrada como profana."

“Planta da cidade de Lisboa baixa arruinada em que vão de linhas pretas delgadas as ruas e as travessas antigas, e em branco as ruas de novo escolhidas, os edificios novos de carmin claro, as igrejas de carmin mais forte e cruz, e a divisão das freguesias de azul.”
Estas três plantas, entre as várias apresentadas ao rei em diferentes fases de conceção da nova Baixa, mostram como os princípios fundamentais da reconstrução foram tomando forma, num processo de desenho e experimentação, com avanços e recuos. Antes do terramoto, a Baixa de Lisboa tinha mais de 40 ruas e 70 vielas – como seria possível reorganizar este intricado de vias? Aos poucos os diversos planos vão conduzindo à forma final, primeiro aglutinando ruas, igrejas, edifícios, depois eliminando-os por completo: o plano final corta radicalmente com a organicidade do espaço, eliminando toda e qualquer linha curva ou mesmo oblíqua, mas mantém as duas praças, Rossio e Terreiro do Paço (batizada de Praça do Comércio), como referências espaciais da velha Lisboa. Durante o processo de desenho, levantam-se questões: seria melhor fechar a cidade ao rio, impedindo assim que um futuro tsunami destruísse a cidade? Como melhorar as comunicações? A exposição solar? A circulação do ar? E a higiene urbana? O plano final o revelaria, entre as duas praças acontece a grande transformação: da miríade de praças, ruas e ruelas, nascem novas vias, largas, direitas, atravessadas por outras perpendiculares, numa grelha ortogonal perfeita, ligeiramente rodada em relação ao rio, para melhor aproveitar a exposição solar, e num declive subtil, para melhor escoar as águas. A direção dos ventos dominantes também é considerada, para melhorar a qualidade do ar. Esta cidade vai dar aos Lisboetas melhores acessos, mais saúde e mais segurança.

Nesta pintura comemorativa, para além do tema representado - a receção oficial de um representante diplomático da Santa Sé pelo rei de Portugal D. Pedro II, podemos observar também a cuidada envolvente arquitetónica e imaginar a grandeza palaciana da Lisboa pré-terramoto.


Embora fosse no papel que as ideias tomavam forma, estas eram influenciadas pela prática, pela evolução das ideias tecnológicas e as transformações no terreno. Um dos exemplos dessa evolução foi a regra de edifícios com o máximo de dois pisos acima do rés-do-chão: Manuel da Maia constatou que quanto mais altos os edifícios, maior a destruição, no fundo, seguindo a mesma intuição de Jean-Jacques Rosseau. Portanto, Eugénio dos Santos propôs que os edifícios não tivessem mais altura do que a largura das ruas, para prevenir danos generalizados no futuro. Mas essa regra seria mais tarde contornada, e os edifícios foram redesenhados com três andares, até porque a introdução da gaiola pombalina veio oferecer maior segurança e estabilidade, permitindo a adição de mais andares.
A pompa dos palácios e das velhas igrejas implicavam construção em altura, alterações, acrescentos e ornamentação. Tudo isto estava em contradição com os critérios de segurança e representação política da nova lógica arquitetónica. Por essa razão, muitos dos velhos palácios e igrejas como os que podemos observar na pintura que representa o Terreiro do Paço, desapareceram da paisagem lisboeta a seguir ao terramoto. Na pintura que representa o Rossio pré-terramoto, podemos ver os arcos que ladeavam o Hospital de Todos os Santos, criando uma galeria coberta para transeuntes. Este tipo de arcos pode hoje ser ainda observado em outras cidades portuguesas, como na Praça do Giraldo, em Évora. Évora sofreu relativamente poucos estragos com o terramoto, e por isso conserva ainda muitos destes traços que tipificavam a Lisboa desta época, neste caso, as arcadas, mas também o chafariz central, na mesma praça, construído no final do século XVI. Nas suas Dissertações, Manuel da Maia discutiu se se deveria ou não reconstruir as arcadas em Lisboa, pois era importante manter esse antigo espaço de reunião de mercadores e circulação de pessoas, adaptando as suas formas aos critérios arquitetónicos da nova cidade. Se no Rossio a opção foi abandonar as arcadas, na Praça do Comércio as arcadas reaparecem com nova dignidade, repetindo-se, modulares, tanto a este, como a oeste, como a norte da praça, garantindo a monumentalidade do conjunto.
Ideais iluministas animavam os engenheiros da reconstrução e refletiam-se nos seus desenhos. Com facilidade de movimento, lotes estandardizados, parcelamentos simples e um racionamento do espaço reservado às igrejas, o plano de Eugénio dos Santos ia ao encontro dos objetivos concetuais estabelecidos por Manuel da Maia, tendo servido de base à Baixa Pombalina. Para a construção, um novo método, racional e eficiente, seria posto em prática, com elementos modulares, componentes pré-fabricados e dimensões estandardizadas.
Nos primeiros 10 anos após o terramoto, vão construir-se uma média de 6 edifícios por ano e depois, entre 1766 e 1777 uma média de 35 por ano – uma quantidade impressionante para a tecnologia construtiva do séc. XVIII. O prestígio do Marquês de Pombal ficará para sempre ligado ao impacto causado pela reconstrução de Lisboa: a magnitude e a rapidez (sobretudo para a época) da transformação da cidade. Quando o Marquês de Pombal é finalmente afastado do poder em 1777, diz-se que metade ou pelo menos um terço de Lisboa está reconstruído. A consistência e acerto dos modelos de construção urbana, podem medir-se pela longevidade. O que não está feito, está planificado, e continuará a ser construído, segundo o Plano até ao século XXI. A última parcela deixada vazia pelo terramoto e incluída no Plano de Lisboa de 1758 - entre as ruas do Alecrim e António Maria Cardoso - ficará concluída em 2004, já segundo projeto do arquiteto Siza Vieira.
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Maquete de Lisboa antes do terramoto:
Lisboa Pré-Terramoto (Cidade 3D):
Museu da Cidade (Terreiro do Paço 3D):
Walter Rossa e Raquel Henriques da Silva sobre a (re) invenção de Lisboa depois do Terramoto de 1755:
A estrutura "anti-sísmica" Gaiola Pombalina:
Chafariz do Largo do Rato:
Chafariz da Esperanca:
«Dissertação de Manuel da Maia oferecida em 1756 ao Duque de Lafões, na qualidade de Regedor das Justiças» transcrita em Cristóvão AIRES, Manuel da Maia e os engenheiros militares portugueses no terremoto de 1755, Imp. Nacional, 1910, pp. 23-50:
O Terramoto de 1755, a Torre do Tombo e Manuel da Maia:
“Memorial do Convento”, José SARAMAGO, 1982 - Editorial Caminho (obra de ficção histórica que tem a construção do Convento de Mafra como centro da ação):
Filipe Lobo, pintor:
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