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Gaiola Pombalina

Manuel da Maia e a sua equipa desenvolveram um sistema de construção que permitia aos edifícios resistirem muito melhor a sismos. Inspirando-se em aplicações prévias do sistema, criaram armações de madeira que se pudessem mover com as ondas sísmicas, sem causar danos estruturais graves nos edifícios.

O resultado foi a gaiola que aqui veem, à qual se acabou por chamar Gaiola Pombalina, por ser emblemática das novidades construtivas associadas ao marquês de Pombal. As traves diagonais reforçam a estrutura do edifício, permitindo a transmissão de forças de cisalhamento de um andar para outro e evitando assim o colapso. A estrutura em treliça, preenchida com alvenaria, verga-se e move-se com o abalo. Mesmo caindo o enchimento de alvenaria, mantinha-se a estrutura.

Uma vez construído o modelo, havia que testá-lo. Mas como testar uma estrutura que precisa de resistir a um sismo? Diz-se que o regimento de Carlos Mardel deu uma mão... Ou, melhor dizendo, um pé. A estrutura foi montada numa plataforma de madeira, e o regimento marchou ao seu lado, simulando com o bater dos pés as vibrações causadas por um sismo.

Gaiola Pombalina – modelo à escala, coleção do Museu de Engenharia Civil do Instituto Superior Técnico, fotografias © QUAKE.

O modelo mais famoso da Gaiola Pombalina encontra-se no Museu de Engenharia Civil do Instituto Superior Técnico. O modelo mostra o que hoje se chama uma “caixa de escadas”, neste caso uma lindíssima escada monumental, em que podemos ver como a estrutura de madeira que suporta o edifício envolve a escada. Atente nos pormenores: o chão de “mosaico” (embutido de madeira?), o encaixe do cobertor de cada degrau, os elementos decorativos da balaustrada...

A Gaiola Pombalina é um elemento estrutural tipicamente português, embora se desconheça a origem. Muito provavelmente baseado em modelos construtivos existentes, tanto em Lisboa, em zonas antigas da cidade, nomeadamente na encosta do Castelo, como na Europa do Norte e na Turquia, este modelo apresenta novas características, cumprindo muitos mais requisitos. É uma estrutura de madeira composta por elementos diagonais, as cruzes de Santo André, elementos verticais e elementos horizontais, o que lhe confere uma elasticidade superior. Esta estrutura, por si só, tem um bom comportamento sísmico, que é melhorado pelo enchimento de alvenaria, dando-lhe ainda mais resistência. Outro dos motivos da grande resistência deste método construtivo (não representado neste modelo), é o sistema de estacaria de madeira em que os edifícios assentavam, os alicerces dos edifícios da Baixa que, impregnados de água salgada, resistiam ao apodrecimento e ao fogo.

Mas qual a origem do nome Gaiola? Porque durante a reconstrução de Lisboa as pessoas achavam graça ver subir estas estruturas, semelhantes a gaiolas para grandes pássaros. Só numa segunda fase a estrutura das paredes eram preenchidas por alvenaria, tornando o edifício “opaco”. Era muito curioso para os transeuntes ver chegar primeiro os carpinteiros e só depois os pedreiros! O apelido Pombalina foi-lhe dado mais tarde, por ser emblemática das reformas que o Marquês de Pombal incutiu na cidade.

Diz-se que a Gaiola Pombalina foi testada na altura, à escala real, em grandes estrados de madeira construídos no Terreiro do Paço. Soldados terão marchado ao lado das estruturas para imitar as vibrações de um terramoto, mas há também a teoria de que terão batido nos estrados com martelos. Se assim realmente se passou, este teste criou a primeira mesa sísmica da história. O mais provável, porém, é que não tenha sido um teste, e sim uma demonstração de uma técnica inventada e aperfeiçoada discretamente na Casa do Risco, onde se planeava e desenhava a nova Lisboa.

O uso da Gaiola Pombalina, imediatamente generalizado, não aparece indicado em nenhum decreto – embora esteja de certo modo subentendido nas instruções que acompanhavam o plano final para a reconstrução, completado em Junho de 1758. A Gaiola Pombalina foi mantida como método construtivo até aos anos trinta do séc. XX. Curiosamente, não se conhecem desenhos técnicos deste sistema. O que nos leva a pensar em técnicas muito especializadas mas passadas oralmente de “gaioleiro” para “gaioleiro” – mestres carpinteiros especializados na sua construção.

Imagem @CamaraLisboa Esta maquete, uma miniatura de Gaiola Pombalina pertencente ao Regimento de Sapadores Bombeiros, serviu durante anos para instruir aos bombeiros o tipo de estrutura de madeira que iam encontrar em caso de incêndio em edifícios da Baixa de Lisboa.

Esta maquete, uma miniatura de Gaiola Pombalina pertencente ao Regimento de Sapadores Bombeiros, serviu durante anos para instruir aos bombeiros o tipo de estrutura de madeira que iam encontrar em caso de incêndio em edifícios da Baixa de Lisboa.

Fotografias cedidas por © LADO arquitectura e design.

Imagens do interior de um edifício pombalino de sete pisos na baixa lisboeta, nomeadamente na Rua do Ouro, durante obras de reabilitação profunda, em 2018/2020. Nestas fotografias podemos ver a estrutura da gaiola pombalina, com e sem enchimento de alvenaria, e também exemplos de vãos interiores, com as suas características portas com “bandeira”. Repare também nas paredes interiores, como eram feitas, com tábuas ao alto e fasquiado, para aplicação do reboco, as chamadas paredes de “tabique”.

Prospecto das frontarias que hande ter as ruas principaes que se mandaõ edificar em Lisboa baixa arruinada e se dividem com colunelos para separaçaõ do uzo da gente de pé do das carruages. Desenho a tinta-da-china, assinado por Sabastião Joseph de Carvalho e Mello e Eugénio dos Santos e Carvalho.  Cartulário Pombalino © Arquivo Municipal de Lisboa.
Prospecto da Rua Nova do Carmo no lado que olha para o Oriente   Cartulário Pombalino © Arquivo Municipal de Lisboa.

Quando observamos estes alçados, parte da coleção do Cartulário Pombalino, podemos perceber como a estrutura da gaiola os determina. Mas não é só a gaiola que confere ao estilo pombalino a sua repetição modular característica. Cantarias, ferragens, portas, janelas, até azulejaria específica, repetem-se de forma sistemática, em fachadas, pórticos, escadarias, interiores. Os motivos óbvios que justificam esta opção são a ordem, a economia e a urgência. Mas a sua aplicação acaba por ser determinante da estética pombalina, operando simultaneamente como causa e consequência da mesma.

Este modo construtivo, baseado na estandardização e pré-fabricação, a esta escala, era total novidade na história da construção nacional. Esse foi um dos maiores desafios da empreitada lisboeta, que para isso teve de criar e regulamentar fábricas dentro e fora da cidade, com capacidade para abastecer a máquina da reconstrução com elementos pré-fabricados, prontos a instalar. Uma das possíveis inspirações para estas soluções construtivas podem ter sido as barracas importadas da Holanda, imediatamente a seguir ao terramoto, que chegavam prontas a serem montadas em 24 horas – fonte de assombro para Lisboetas e viajantes.

LOCAIS A VISITAR

BIBLIOGRAFIA

Cristóvão AIRES, Manuel da Maia e os engenheiros militares portugueses no terremoto de 1755: https://purl.pt/848

Cristóvão AIRES, Manuel da Maia e os engenheiros militares portugueses no terremoto de 1755, Imprensa Nacional, 1910.  

Teresa Campos COELHO, «Modelos, métodos e técnicas da reconstrução pombalina», Discursos, Língua, cultura e sociedade, nº 1, Abril, 1999, pp. 215-230: https://repositorioaberto.uab.pt/handle/10400.2/4271?locale=en  

José-Augusto FRANÇA, A Reconstrução de Lisboa e a Arquitectura Pombalina, Biblioteca Breve, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1989. 

José-Augusto FRANÇA, Lisboa pombalina e o Iluminismo, Bertrand, 1987. 

Jorge MASCARENHAS, Sistemas de Construção V – O Edifício de Rendimento da Baixa Pombalina de Lisboa., Livros Horizonte, 2009. 

Lúcia Lima RODRIGUES, and Russell CRAIG, «Recovery amid Destruction: Manoel Da Maya and the Lisbon Earthquake of 1755», Libraries & the Cultural Record, volume 43, no. 4, 2008, pp. 397–410. http://www.jstor.org/stable/25549516.  

Walter ROSSA, On the 1st Plan, Câmara Municipal de Lisboa, 2008. 

Walter ROSSA, Além da Baixa: Indícios de planeamento urbano na Lisboa Setecentista, Ministério da Cultura/IPPAR, 1998. 

Cristóvão Aires de Magalhães SEPULVEDA, Manuel da Maia e os engenheiros militares portugueses no terremoto de 1755, Imprensa Nacional, 1910. 

Gustavo Matos SEQUEIRA, «A cidade de D. João V», Lisboa: oito séculos de História, Vol. II, Câmara Municipal de Lisboa, 1947, pp. 468-487. 

Raquel Henriques da SILVA, Lisboa Romântica, Urbanismo e a Arquitectura, 1777-1874, Tese de doutoramento, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, 1997. 

1755 O Grande Terramoto de Lisboa, FLAD/Público, 2005. 

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